sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dia 18



Acordei cedo, tomei meu café e desci para atualizar este diário de viagem. Hoje era o dia de partir do Play Hostel. À medida que a galera foi acordando, todos foram se juntando no refeitório. Como já havia comido mais cedo que todos, subi com minha câmera e um pequeno caderno para registrar o momento e pegar o contato de todos. Marquei nome, e-mail e facebook, com o intuito de enviar-lhes as fotos que tirei. Depois de muitas risadas e conversa, desci para arrumar minhas coisas e tomar um banho.



Tralhas arrumadas e banho tomado era hora de me despedir dos novos amigos e partir. Ficarão em minhas memórias todos eles! Mesmo que tenhamos convivido poucos dias, tive uma impressão muito positiva de todos. Novamente sinto a sensação de que, na vastidão do mundo, sempre encontraremos pessoas que se assemelham a nós, sejam nas ideias, visão de mundo, enfim, ali eu me senti em casa! De lá parti pra casa de Anita para almoçarmos.



Anita me arrastou pra comer num restaurante vegetariano (denovo, já que a última vez que tinha lhe visitado em São Paulo também tinha me levado num desse). Comi uma espécie de risoto com um tipo de queijo lá que não me recordo qual era. Confesso que não estava ruim, mas definitivamente não estou acostumado a esse tipo de alimentação. Inicialmente nossos planos eram deixar minhas coisas no Filipe (amigo que mora em Buenos Aires e tinha ficado de arrumar abrigo pra mim por uns dias) em San Telmo e depois rumar ao estádio do Boca. Como fazia muito calor neste dia, achamos que seria melhor se ficássemos na casa dele pra passar a tarde, já que no prédio havia piscina.



Chegamos lá e tivemos que esperá-lo por cerca de 40 minutos, pois o mesmo tinha ido ao bairro chinês para fazer compras. Assim que ele chegou, acompanhado de sua namorada e sogra, subimos, nos trocamos, e partimos para a piscina. De lá se vê quase toda a cidade, com destaque para a moderna região de Puerto Madero. Lá havia três prédios novos, grandes torres, onde se encontrava na cobertura de uma delas, a residência de Messi em Buenos Aires. Eu e Filipe ficamos por ali trocando ideia, lembrando das presepadas da viagem à Bolívia e Peru, em 2011. Depois de muitas risadas, descemos para pegar as coisas e bater uma bola com os “hermanos”. Filipe havia me convidado pela manhã pra jogar uma pelada e eu, fominha que sou, topei na hora.



A partida seria numa quadra próxima à sua casa, construída embaixo de um viaduto. Excelente aproveitamento do espaço urbano. Na Argentina essa é uma prática comum, existem vários espaços como esse. A quadra tinha as proporções de uma quadra de futsal normal, porém o piso era composto de um material sintético bem ralo (semelhante às quadras de futebol suíço que temos no Brasil). Era minha obrigação mostrar porque somos o país do futebol, rs! De imediato vi que os caras eram uns peladeiros, havendo um e outro que jogavam bem. Os argentinos tem pouca base de futsal, em todo o momento buscam lançamentos e jogadas longas, como se quisessem trazer o campo pra dentro de quadra.



O único cara com quem dava pra preparar alguma jogada em conjunto era um maluco que usava uma camisa do Barcelona. Em resumo, esperava mais do nível dos caras, vejo porque somos o país do futebol, embora que atualmente não vivamos o melhor dos momentos dentro de campo (e também fora dele). Mas foi uma boa experiência, há tempos não jogava, consegui suar bastante. Agradecimentos à Anita, que registrou o momento para que não se perdesse, e para Filipe, que me incluiu na pelada. De lá, Anita foi pra sua casa e Filipe me levou até a casa de seu amigo Gonzalo, que gentilmente me receberia por uns dias.



A casa de Gonzalo fica em Montserrat, bairro ao lado de San Telmo, nas cercanias do Congresso Nacional e da sede da Polícia Federal Argentina. Assim que cheguei logo conheci Pedro e José, dois brasileiros que moram por lá há algum tempo, e também Pepe, um finlandês que já percorre há algum tempo a América Latina. Este último se encarregou de me apresentar a casa (e que casa, diga-se de passagem!). Trata-se de uma construção que pela sua fachada demonstra ser bem antiga, mas que foi toda reformada por dentro. Um espaço de três andares, dividido em dez habitações, que compartilham cinco banheiros, duas cozinhas, uma enorme sala, lavanderia, dentre outros espaços. 



Depois de ser muito bem recebido por todos, tomei um banho, Filipe foi embora e assim me arrumei pra comer algo na rua. Já era 00h00min, não tinha muitos locais abertos. Caminhei um pouco pelo centro até encontrar uma pizzaria. Comi uma pizza pequena (6 pedaços) sabor napolitana, acompanhada de uma coca 600 ml, assistindo ao filme do Wolverine dublado em espanhol. No dia seguinte descobriria que o cara tinha me passado a perna, pois cobrou de mim o preço de uma pizza grande (8 pedaços). Enfim, de estômago cheio, voltei pra casa.



Foi quando conheci Gonzalo, dono do lugar e amigo do Filipe. Ele que me concedera o direito de dormir ali até minha partida de Buenos Aires. Foi muito simpático e hospitaleiro, colocando toda a estrutura à minha disposição: “Aqui é a lavanderia, você pode usar de tal hora a tal hora, se precisar de sabão está aqui...essa é a sua chave da casa, do seu quarto, nele você tem cofre pra guardar sua grana, documentos, etc...” Me senti até envergonhado pelo tipo de tratamento que me foi dado, excelente! Finalmente, depois de tudo, fui dormir, extremamente cansado.

- almoço vegetariano: 85 pesos

- futebol: 40 pesos
- pizza: 130 pesos (quando deveria ter pago 105 pesos)

Jorge (Argentina), Mary (Colômbia), Rafael (Chile), Miguel (Venezuela), Rob (Holanda), Juan Carlos (Argentina) e Allan (Brasil)

Charlotte (França)

Pelada com os hermanos! "Toca y me voy", rsss...

terça-feira, 2 de junho de 2015

Dia 17



Na manhã do dia seguinte levantei cedo, despertado pelo forte calor que fazia na cidade. Como na noite anterior havia chegado tarde ao hostel, acabei pegando a cama mais alta do quadriliche (nem sei se a palavra existe!), ficando acima do nível do ventilador de teto, praticamente num forno. Pela primeira vez em toda a viagem tirei minhas bermudas da mochila e guardei minhas blusas de frio, usadas em todos os momentos até então. Como faz calor em Buenos Aires nessa época do ano!

De imediato tomei uma ducha gelada e na sequência, meu café da manhã. Comi muito bem, pois nenhum hostel pelos quais passei tinham desayunos tão bons quanto este. Depois de muito bem alimentado, desci para a área de convívio e me pus a escrever este diário. Logo os outros hóspedes foram despertando e em alguns minutos já estavam por ali comigo. Entre um cigarro e outro passei a conhecê-los. Conversei a manhã toda com Miguel (Venezuela), Mary (Colômbia) e Rob (Holanda). Conversamos sobre muitas coisas peculiares de cada país, aproximando as culturas, apontando as diferenças e, sobretudo semelhanças marcantes entre os povos. Nessa conversa pude tomar conhecimento de aspectos interessantes do panorama venezuelano, por exemplo, algo que seria dificílimo aprender simplesmente pelos meios midiáticos tradicionais (pra não dizer impossível).

Miguel comentou, dentre outras coisas, que o governo concede às pessoas que tem cartão de crédito uma espécie de incentivo anual de três mil dólares para que essas pessoas possam viajar a outros países. Não compreendi muito bem o porquê o governo empreende tal prática e lhe questionei, dizendo-me ele que como o câmbio é restringido pelo governo (havendo assim uma diferença brutal entre o câmbio oficial e o câmbio paralelo), essa seria uma forma de flexibilizar tal prática. Disse ainda que algumas pessoas utilizam-se de tal prática do governo para fazer dinheiro, fazendo cartões de crédito junto aos bancos, recebendo assim tal subsídio e podendo viajar à outros países, como a Argentina, por exemplo. Uma vez fora da Venezuela, ao invés de desfrutar de sua viagem ficam restritos a um hostel sem ao menos sair para conhecer nada, a fim de gastar o mínimo possível, retornando à Venezuela com dinheiro no bolso e podendo fazer o câmbio extra oficial a valores altíssimos. Aqueles que adotam essa prática são conhecidos como raspadores de tarjeta. Muito curiosa essa situação!

Miguel também me disse que existem àquelas pessoas que se aproveita de tal situação para conhecer outras culturas e outros países, como é o seu caso. Creio que isso esteja ligado ao nível de instrução dessas pessoas e aos interesses econômicos de cada família. É normal que uma pessoa com uma situação financeira estável se valha de uma viagem para desfrutar, enquanto outra, que vive com certa dificuldade em seu país de origem, faça isso a fim de levantar algum dinheiro para adquirir algum bem em seu regresso. Enfim, muito interessante essa conversa, pois, dentre outras coisas, falamos de democracia, importância de participação popular nas discussões político econômicas, etc. Muito bom poder ter esse contato com realidades distintas, e de certa forma, expor a minha realidade. São momentos como esses que fazem uma experiência como a que estou vivendo fascinante.

Depois dessa manhã repleta de troca de ideias, fui ao apartamento de Anita para encontrá-la. Ela estava a resolver alguns assuntos pessoais por meio do Skype. Antes de partirmos para o rolê, Anita nos assegurou convites grátis para uma balada (boliche, como dizem por aqui) mais tarde. Haveria uma apresentação de um amigo seu num local chamado “Konex”. O destino da tarde seria ir até a tal Calle Florida fazer câmbio de moeda. Andamos bastante pela rua, entrando em lojas, vendo preços, enfim, um role que não me agrada muito.

Na Argentina, destaco a falta de trato dos lojistas para com os turistas. Em quase todas as lojas pelas quais passei me diziam que revistariam a minha mochila quando eu fosse sair, um absurdo! Como se eu fosse meter alguma coisa dentro e sair andando, mesmo com vários seguranças caminhando pelo interior da loja. Enfim, confesso que isso me incomodou muito, a ponto de eu nem entrar mais nas lojas, preferia aguardar por Anita do lado de fora.

Observando os preços, não notei diferença circunstancial para alguns produtos. Como curiosidade, destaco o preço das havaianas, custam cerca de R$ 40,00 por aqui. Como esqueci as minhas no hostel em Puerto Natales (só me dando conta disso dias depois, em Chaltén), saí com a intenção de comprar uma. Depois de ver os preços, desisti da ideia, compro no meu regresso ao Brasil, pela metade do preço. Depois de muito pesquisar, conseguimos câmbio a 4,10. Impressionou-me a quantidade de pessoas que empreendem essa prática. Escutei a palavra “câmbio” um milhão de vezes. Trocamos nossa grana com um cara chamado André, baiano, numa banca de revistas. Depois disso continuamos nossa caminhada pelo calçadão.

Encontramos exposta na praça a taça da Copa América 2015, a ser realizada no Chile. É claro que pedi a Anita que tirasse uma foto minha ao lado do troféu. Seguimos andando e pedi que Anita me desse uma dica de um presente feminino genuinamente argentino, ou melhor, porteño. Fui orientado a comprar alguns pares de alpargatas. Como não sabia qual numeração comprar, Anita contactou minha irmã Carol por whatsapp, resolvendo essa questão. Ponto pra tecnologia (que nesse momento já ganha de goleada) e pro conceito de Anita, que diz ser um dos grandes problemas da humanidade a falta de comunicação. Depois de muito caminhar encontramos as tais alpargatas por um preço bom, mas a loja já estava fechada.

Sendo assim, como já me encontrava faminto, resolvemos comer alguma coisa por ali mesmo. Comi uma milanesa de vacuno con guarnición de papas fritas, e Anita, como de costume ficou na salada. Assim que terminamos fomos até uma loja que Anita tinha visto uma sandália que queria comprar. Mais uma dessas modas argentinas (uma sandália com um solado grossão, feio pra caralho, mas que 9 entre 10 argentinas usam atualmente). A vendedora, Daiana, foi muito simpática. Conversamos por algum tempo enquanto Anita se decidia.

Já perto das 20h00min, decidimos ir para a tal apresentação do amigo de Anita, que havia nos presenteado com dois convites. O nome do grupo é “La bomba de tiempo”, uma espécie de percussão em tambores, uma parada bem latina que se assemelha a um Olodum. Legalzinho até o ritmo dos caras! No local pude observar exemplares clássicos da classe média portenha (uma vez que não são todas as pessoas que pagam 90 pesos para entrar numa balada e 70 pesos numa cerveja). No local também era consumida muita maconha, chamada de “porro” pelos caras, de péssima qualidade diga-se de passagem. Findada a apresentação, resolvemos partir.

Na volta pra casa, antes de pegar o bus, paramos numa sorveteria. Nesse estabelecimento tive mais um exemplo da péssima forma de atender um cliente. Anita pediu o seu sorvete (30 pesos) e pagou com uma nota de 100 pesos. O caixa, embora não tenha gostado muito, deu o troco. Na minha vez de pagar fiz a mesma coisa, pedi o sorvete de 30 pesos e me propus à pagar também com uma nota de 100. O atendente do caixa de imediato disse que não teria troco, de cara fechada, esbravejando, e já chamando o próximo da fila. Logo disse a ele que não queria mais nada e agradeci, puto da cara. Nesse momento veio um outro atendente e disse que eu poderia tomar o sorvete e pagar depois, quando terminar, havendo assim tempo para que outros clientes pagassem por seus gastos. Eu estava tão puto da cara com a sequência de atendimentos ruins que nem me dei conta disso. Anita, que estava mais calma que eu, percebeu a boa intenção do outro atendente e me alertou.

Dessa forma, pegamos nossos sorvetes e nos sentamos fora da loja. Quando terminamos fui pagar o meu pedido, já mais calmo, e fui surpreendido pelo cara do caixa, que se negou a receber meu dinheiro, dizendo que aquele gelado seria por conta da casa, uma cortesia. Insisti em pagar uma vez, não mais que isso! Seu patrão deve estar com os bolsos cheios e com certeza aquele sorvete não seria pago pelo tal funcionário. Assim, fomos pegar o bus de volta à Palermo. Como não estávamos bem certos de qual colectivo tomar, paramos numa confeitaria para perguntar. Uma senhora nos viu perguntando ao caixa do estabelecimento e veio até nós dizendo: “Desculpem, eu sou de Palermo, o ônibus é esse!”, nos apontando o ônibus correto.

Na mesma mesa que ela estava outra senhora, Adriana, que ao ver que éramos brasileiros pediu para conversar um pouco conosco, pois, segundo ela, sabia falar português, mas há tempos não praticava. A senhorinha era linguista, falava espanhol, português, francês e alemão. Disse-nos ter trabalhado no consulado argentino em Berlim, durante muito tempo. O seu português de fato era muito bom e fluente, tirando o leve sotaque que carregava. Despedimo-nos e fomos embora.

Chegando ao hostel eu conheci Catarina, uma portuguesa que trabalhava na recepção. Conversamos um pouco, em português, e paguei a segunda diária. Tomei um banho e conversei um pouco com a galera que estava por ali. No andar de cima, outra galera fazia um assado que cheirava muito bem. Apesar de ter sido convidado, preferi ficar no andar de baixo mesmo, pois não tinha fome. Passado algum tempo, todos desceram e sentaram à minha volta ali embaixo, e foram logo me oferecendo suas cervejas. Confraternizamos até umas 3 da manhã, quando todos fomos dormir.
- cartão "sube" (transporte): 25 pesos
- carga no cartão: 50 pesos
- restaurante: 115 pesos
- 2ª diária do hostel: 133 pesos
Tony Montana na Calle Florida

Calle Florida, Buenos Aires

Área de convívio do Play Hostel




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Dia 16: de volta a Buenos Aires



Na manhã do dia seguinte levantei cedo, arrumei minhas coisas, tomei um banho e fiquei aguardando o horário do meu ônibus. Nesse momento, graças à Júlia (a austríaca que havia conhecido na noite anterior) não perdi o horário. Não sei o que aconteceu com meu celular, mas ele havia voltado pro horário brasileiro, atrasando uma hora. O fato é que eu estava na cozinha comendo uma fruta, bem tranqüilo, quando chega Júlia e me pergunta se já não estava no meu horário de partir. Disse a ela que faltava ainda um tempo considerável, não tinha pressa. “Vocês brasileiros são tão calmos! Se tivesse um vôo pra pegar agora eu já estaria agitada!”. Depois da breve conversa perguntei a hora ao recepcionista e descobri que faltavam 10 minutos pro meu ônibus até Calafate partir. Peguei minha mochila e parti. Sorte estar do lado da rodoviária!

Cheguei ao aeroporto de Calafate por volta das 13h30min, sendo que meu vôo sairia somente às 18h05min. Longa espera que só não foi maior porque fiquei conversando com meu bem a tarde toda. Como ainda estava na penúria por conta do câmbio desfavorável de Chaltén, havia comido somente uma maçã em toda a tarde. Não via a hora de embarcar para desfrutar da pequena refeição servida no vôo. E na real foi pequeníssima, duas bolachinhas recheadas e um copo de Sprite. De certa forma já enganou meu estômago por um par de horas.

No vôo para Buenos Aires fiquei observando as pessoas, como normalmente costumo fazer. À minha frente, um jovem argentino tipicamente portenho, visualmente de uma classe favorecida, não tirou os olhos de seu iphone por um só minuto, aumentando ainda mais sua sensação de isolamento social com seus fones de ouvido gigantes (daqueles que custam quase o preço do iphone). Um completo sem educação, pois não respeitou os avisos (foram vários!) das aeromoças para desligar os aparelhos eletrônicos, além de conseguir derrubar gelo em mim na poltrona de trás, sem ao menos de desculpar. 

Assim que cheguei já contactei Anita, desta vez com sucesso. Tomei um táxi e fui até sua casa. O taxista era Miguel, uma pessoa muito simpática. Conversamos sobre a última Copa do Mundo, do trágico 7 a 1, como não podia ser diferente. O taxímetro marcou 84 pesos, mas já havia lhe dito que tudo o que tinha eram 76 pesos. Miguel, sem titubear, me disse pra ficar tranquilo que me deixaria em meu destino, sem a necessidade de caminhar uma só quadra se quer. Agradeci sua gentileza e saltei do táxi, já em Palermo. Assim que encontrei Anita disse que estava faminto e precisava comer algo. Nesse momento terminava minha penúria, pois carregava uma grana pra Anita do Brasil, e como retribuição pela gentileza ela cambiou algum dinheiro pra mim! Deixei minha mochila em seu prédio e nos mandamos pelo bairro.

Comi um hambúrguer generoso acompanhado de batatas fritas e uma cerveja. Era o que precisava para ganhar uns pontos de vida. Enquanto comia, Anita me contava suas desventuras amorosas Depois de comer (e ouvir!) fomos procurar um hostel pra eu passar a noite. Acabei ficando no Play Hostel (http://www.playhostel.com/) por ser próximo do prédio de Anita e pelo preço em conta. Recomendado! Barato pros padrões de Buenos Aires. Depois disso tomei um banho e saímos pra tomar uma cerveja e terminar o papo.

Fomos até a Praça Serrano, point conhecido de Palermo e nos sentamos para a tal breja (que por sinal tomei sozinho, pois Anita não bebe!). No auge do papo, eu falando pelos cotovelos, como de costume, fomos interpelados por um garçom brasileiro, que há alguns minutos já se divertia com nossa conversa sem sabermos. Acabava de descobrir mais um lugar repleto de brasileiros Saímos deste bar do qual fomos tocados pelos garçons pois já iriam fechar. Me senti em Maringá! Sentamos num bar ao lado e continuamos a prosa até as 5 da manhã. Depois disso deixei Anita em seu prédio e fui dormir.
- táxi: 76 pesos
- hamburger + batata + cerveja: 80 pesos
- cerveja: 50 pesos
- cerveja + batatas (segundo bar): 80 pesos
- diária do hostel: 150 pesos
 
Anita, aquela que me ajudaria a desbravar a capital.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dia 15



Findado o dia anterior, depois de um banho quente revigorante acordei às 07h00min e comecei o preparo para a subida ao Fitz Roy (local onde me ponho a escrever agora) e para a Laguna de los Três. Como o hostel não contava com café da manhã, desci para a cozinha e lá preparei uma xícara de café, um copo de cereal com leite e alguns pedaços de pão com manteiga. Na ocasião, uma das alemãs, que estavam no mesmo quarto que eu, perguntou se estava tudo bem comigo, pois não tinha conversado muito e tinha ido me deitar cedo. Agradeci a preocupação e expliquei que estava muito cansado pela sequência de dias mal dormidos (principalmente pela noite passada na rodoviária) e também em função do meu inglês não ser assim tão fluente.

Conversamos um pouco sobre como chegar ao Fitz Roy sem tomar nenhuma van (nada que me custasse quaisquer valores), de forma independente. Depois disso encontrei um casal de brasileiros que confirmaram as informações passadas pela alemã. Iniciei a caminhada às 08h00min, depois de pegar um mapa no centro de informação para turistas (muito comum por lá) no terminal rodoviário. Já quase na saída da cidade, onde começava a trilha para o Fitz Roy, encontro novamente Scott, o nova-iorquino, dizendo que a noite anterior havia sido uma loucura segundo ele. Mal sabia como tinha chegado ao seu hostel e acordado cedo. Depois de algumas risadas, segui meu caminho.

Quando iniciei a trilha o tempo estava nublado e fazia pouco frio. Acreditava que poderia ser muito frustrante caminhar todo o percurso para chegar à montanha e não ver nada lá de cima, mas mesmo assim segui em frente. Seriam 10 km de trilha até a montanha, sendo o último deles o mais difícil (ao menos era o que todos diziam). Havia alguns avisos alertando sobre a necessidade de estar bem física e mentalmente para concluir a subida. A caminhada foi bem tranqüila, tinha dormido bem e me alimentado decentemente, o que faz certa diferença nesse tipo de trilha. À medida que ia subindo, já podia ver parte da majestosa montanha. O sol foi saindo em meio às nuvens, o tempo foi melhorando.

Conheci algumas pessoas no percurso, embora não tenha perguntado o nome de nenhuma delas, apenas conversações rápidas. No fim das contas o trecho final não foi tão duro quanto haviam dito, sendo um pouco difícil sim, de fato, mas creio que os dias em Torres del Paine serviram como uma ótima preparação física. Concluí a travessia do trecho final na metade do tempo que os avisos estipulavam. Quando finalmente cheguei ao topo da montanha, lá estava o tal Fitz Roy, sem uma única nuvem que pudesse atrapalhar a visão. Simplesmente sensacional aquela vista! Cheguei ao topo às 11h00min e só desci de lá às 16h00min. Passei o dia todo contemplando aquela beleza toda. Tirei fotos, escrevi, admirei, tudo o que imaginava foi superado. Tive até o previlégio de fotografar três condores que nos deram o prazer de contemplar seu vôo (eles praticamente não batem suas asas, apenas planam pelas correntes de ar), um espetáculo à parte!

Pelo tempo que lá fiquei busquei pensar bastante na vida, fazer planos, observar as pessoas, etc. Uma oportunidade imperdível para colocar em ordem seus pensamentos! Nessas observações, havia um senhor que já passava dos 50 anos, estadunidense, conversando com duas gurias bem jovens, uma argentina e outra catalã. Chamou-me a atenção, pois o tiozão tinha um telefone via satélite, o que possibilitou que as gurias fizessem ligações para suas respectivas casas dizendo estar no alto da montanha em “muy buena onda, muy contentas!”. Muito tecnológico aquele senhor. Do pouco que prestei a atenção, pude ouvir (“sapear” na verdade) que aquele senhor havia investido dinheiro no mercado de ações nos anos 80, ganhando muito dinheiro, o que possibilitou pedir demissão do seu antigo emprego pra curtir a vida. Mais estadunidense que isso impossível!

Sem vontade alguma de sair dali, resolvi caminhar um pouco pelo topo. Foi aí que descobri a tal Laguna de los Três, escondida por detrás da montanha. Trata-se de três pequenas lagoas formadas pelo degelo da montanha, cada uma em um plano diferente, tornando-se impossível fotografá-las numa só foto. Depois de mais alguns instantes admirando as cachoeiras formadas pelo degelo, resolvi que era o momento de iniciar a descida. A todo o momento parava e olhava para trás a fim de contemplar aquela paisagem mais uma única vez. Tirei uma sequência de fotos iguais, pra não perder sequer uma única visão daquilo. No meio da descida encontro novamente Scott (fato recorrente em toda a viagem) subindo a montanha (de sandálias).

Finalizada a descida, tomado por um sentimento de realização intenso, passei numa pequena venda e comprei algumas frutas com a grana que e restava. Assim que cheguei ao hostel tomei um banho e desci para a cozinha a fim de comer algo, estava faminto. Lá havia três israelenses preparando hambúrgueres e duas gurias fazendo purê de batatas. Comi alguns pães com presunto, cereal com leite e frutas que havia comprado quando retornei do trekking. As duas gurias, uma alemã chamada Hanna e sua amiga austríaca, Júlia, disseram que eu era muito saudável, pois estava a comer “slow food”. Disse a elas que tinha vontade de comer “hamburguesas” bem como os israelenses, mas o que me restava era a comida saudável. Percebi que não estava tão mal assim, pois comer purê de batatas puro não é das melhores refeições, devo admitir. No final do papo Hanna foi muito simpática ao me convidar para assistir um filme de graça que ia rolar numa livraria na cidade.

Ao subir pro quarto, a fim de descansar, chegaram duas novas pessoas, até então só estavam eu e duas alemãs. Agora chegaram Chelsea, da Austrália e John, de Cingapura. Conversamos um pouco em inglês, o tempo suficiente pro meu vocabulário acabar, rs! Chelsea me contou que seu cartão de crédito havia sido clonado e todo o seu dinheiro sacado nas Filipinas (!), isso mesmo! Já tinha entrado em contato com o banco e aguardava a restituição por parte deles. Conversei um pouco com John, quando pude ter algumas impressões do ensino básico no seu país. O maluco tinha no máximo uns 20 anos, embora aparentasse uns 15 no máximo, mas era muito inteligente. Depois dessa conversa, pedi se poderia apagar a luz e capotei.

Início da trilha.

Río de las Vueltas

Chuva indo embora, descobrindo a montanha.

Fitz Roy!



 
Na volta pra Chaltén, sempre que olhava pra trás essa era a vista!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Dia 14



Despertei às 06h00min, escovei os dentes e fumei um cigarro. Adquiri esse hábito durante minha estadia no parque, pois em meio a toda aquela imensidão não há muita coisa a se fazer, então um cigarro e uma conversa se torna algo prazeroso (além de esquentar um bocado). Ao meu lado estava Renata, uma brasileira do Rio de Janeiro que dormiu num banco ao meu lado. Na ocasião me orientou a não perder tempo procurando hostel pela cidade, pois todos estavam lotados, como já desconfiávamos.



Resolvi que o melhor a se fazer era ir a El Chaltén com passagem de volta já comprada, pois meu vôo sairia dali mesmo, Calafate, no domingo. Depois de uma rápida pesquisa pelas empresas que faziam o trajeto, consegui um passeio de ida e volta ao Perito Moreno (ali mesmo em Calafate) saindo às 08h30min e retornando às 16h00min. Além disso, consegui uma passagem pra Chaltén na seqüência desse passeio, no mesmo dia, com retorno marcado para o domingo (como havia planejado). Dessa forma, haveria tempo de conhecer o Perito Moreno, ir até Chaltén para completar o trekking ao Fitz Roy, e voltar em tempo de pegar meu vôo a Buenos Aires.

- passagem de ida e volta ao Perito Moreno e ida e volta a Chaltén: 782 pesos

- entrada ao Parque Nacional Los Glaciares (Perito Moreno): 150 pesos

- torta na rodoviária: 20 pesos

- guarda-volumes no terminal rodoviário: 10 pesos



A ida ao Perito Moreno seria de aproximadamente uma hora. Como a noite anterior sido péssima, senti sono por todo o trajeto. Assim que chegamos à entrada do parque um funcionário subiu ao ônibus para cobrar os tickets de entrada. Assim que todos pagaram o motorista seguiu até uma embarcação para àqueles que quisessem fazer um passeio pelo Lago Argentino, se aproximando bastante dos paredões de gelo. O detalhe é que para tal passeio o cidadão deve desembolsar mais 200 pesos. Se nem os turistas gringos se deram ao luxo de desembolsar seus euros, imagine eu, só mais um cidadão latino americano. Um absurdo! Dois ou três passageiros optaram pelo passeio, mais ninguém. Assim seguimos para as passarelas a fim de conhecer o Campo de Gelo Sul.



A visão que se tem do paredão é magnífica! Na parte da frente, se tem a sensação da magnitude da imagem, 50 metros de altura. Em sua profundidade, o campo de estende por 14 km. Se perde a visão de tudo, em sua totalidade. A cada desprendimento de pedaços do paredão gelado se tem um espetáculo fabuloso. Um estrondo marca a queda dos pedaços de gelo na água, coisa de toneladas. Dizem que uma camada de 1 metro se desprende a cada dia. Paro o relato por aqui por um instante, pois escrevo essa parte observando a magnitude do Fitz Roy, mas um grupo de turistas gringos, já de mais idade, quebrou minha harmonia. Sentaram ao meu lado para desfrutar do seu almoço que o seu passeio guiado (e muito mais caro, provavelmente) lhes proporcionou. Realocado a alguns metros mais longe, agora sem escutar a voz histérica das senhoras gringas, retomo a descrição.



Voltemos ao Perito Moreno. Um conjunto de passarelas metálicas circunda a imensidão gelada. A verdade é que em alguns minutos já se pode ver tudo, e os mais apressados já sobem logo para a loja de lembranças e para o café, a fim de consumirem algo. Mesmo com os joelhos me matando por conta da trilha finalizada há dois dias atrás, fiz questão de percorrer tudo, afinal de contas só eu sei o sacrifício que fiz para desfrutar daquele momento. Depois de cerca de duas horas de caminhada sobre as passarelas e muitas fotos tiradas, subi ao café para comer algo. Tomei uma Isenbeck (cerveja argentina de puro malte muito bem recomendada) e comi um sanduíche de carne a milanesa y queso, muito generoso. Uma vez alimentado, fumei um cigarro, daqueles ainda presenteados pelos catalães. Foi aí que me bateu um sono tremendo, cheguei até a cochilar sentado num banco. A fim de vencer o sono, fui até a loja de lembranças para ocupar a cabeça, já que grana eu não tinha pra mais nada!



Foi ali que pude perceber que alguns brasileiros só fazem esses passeios com o intuito de comprar coisas baratas. Não todos, é claro, não quero cair em generalismos. Andando pelas prateleiras, em silêncio, vejo dois senhores que aparentavam ter seus 50 anos. Um deles pegou um par de meias e disse: “Vou levar, não se encontram meias baratas assim no Brasil!”. Porra, o cara foi pra Argentina, acabou de conhecer um dos maiores campos de gelo do Hemisfério Sul e vai levar meias pra casa? Bem, quem sou eu pra julgá-lo, cada um sabe bem onde seu calo aperta.



Bem, depois de matar algum tempo até a chegada do ônibus, embarcamos de volta à Calafate às 14h30min. A volta foi um tanto tediosa, dormi grande parte do trajeto. Chegando ao terminal fui logo esperar meu próximo ônibus que me levaria à Chaltén. O ônibus saiu do terminal rodoviário quase vazio, vim sentado no primeiro banco, dessa vez sem ninguém ao meu lado. Observei a estrada por todo o percurso, com medo do motorista dormir, pois se trata de retas intermináveis, seguidas de algumas poucas curvas nada acentuadas.



Três horas depois chegamos a Chaltén, a capital nacional do trekking, onde conheceria o local de onde escrevo agora. Antes, uma breve descrição do que encontrei. Trata-se de uma cidade muito pequena, talvez a menor pela qual passei até agora. Assim que cheguei já avistei um hostel ao lado do terminal rodoviário e logo fui perguntar o preço da diária. Seriam 160 pesos. Achei o preço justo pela estrutura e fiz check-in sem ver outros valores. Deixei minha mochila no quarto e fui logo dar uma volta pela cidade a fim de fazer câmbio. Passando por outros locais vi que havia preços mais acessíveis, embora com estruturas mais precárias. Logo vi que o câmbio para o Real na cidade seria péssimo (3,10 pesos para cada Real – estava cambiando a 4,5 nas cidades anteriores) e assim teria que passar os dois dias ali na penúria, se não quisesse perder dinheiro.



Fui logo a uma pequena venda e comprei pão, um pacote de cereal, uma caixa de leite, uma caixa de suco de laranja, duas pequenas barras de chocolate, uma caixinha de manteiga e só. Soma-se a isso uma bandeja de presunto embalada a vácuo e um pote de doce de leite, que me restaram da trilha. Isso seria meu suprimento alimentício pelos próximos dois dias que teria pela frente. Nessa mesma vendinha fiz câmbio de R$ 100,00 para pagar a despesa do hostel. Sendo assim, voltei ao hostel pra descansar pro dia seguinte, que seria longo.

- compra de mantimentos: 108 pesos

- diária de dois dias no hostel: 320 pesos
Perito Moreno - Parque Nacional Los Glaciares


Na parte do gelo que parece estar "suja" ao centro da foto, havia uma espécie de arco que conectava a geleira com as pedras. Em março de 2004 esse arco se rompeu, evidenciando o processo de degelo.



Onde havia o tal "arco".

 Passarelas metálicas, muito bem construídas!


 
Pássaro comendo o fruto que dá nome à cidade (Calafate).

El Chaltén, a capital nacional do trekking.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Dia 13



No dia seguinte acordei às 09h00min para aproveitar o café do hostel. Assim que comi comecei a arrumar minhas roupas na mochila novamente (estavam em sacos pretos, deixados numa espécie de guarda-volumes do hostel, para que a mochila estivesse livre pra sua utilização no circuito W). Assim que as coisas estavam minimamente organizadas fui buscar minhas roupas que havia deixado na lavanderia no dia anterior. Elas voltaram minimamente limpas, com um cheiro bom, embora um pouco encardidas (limpas mesmo só serão no Brasil).

Retornei ao hostel e preparei minha mochila para partir no fim da tarde, às 18h00min, com destino a Calafate. Como teria a tarde toda livre, resolvi andar pela cidade para conhecê-la, tirando algumas fotos. Também fui ao correio para enviar alguns postais que havia comprado em Ushuaia, mas não tive tempo de postar. Nessa caminhada encontrei alguns rostos conhecidos que estavam acampando no decorrer do circuito, entre eles Javiera e Cristóban, que conheci no primeiro dia de camping. Ambos eram chilenos de Santiago. Conversando com eles descobri que também iriam a Calafate no mesmo ônibus que eu.

Bom, retorno agora ao horário do almoço, pois já ia me esquecendo dos amigos André e Fernanda, que conheci no dia em que cheguei a Puerto Natales, na loja onde aluguei os equipamentos. A partir daí se sucederam uma série de “encontros”. Assim que retornei da rua para o almoço no hostel, estavam os dois almoçando e gentilmente me convidaram para sentar com eles, no próprio hostel onde estava hospedado (Josmar Hostel). Estavam tomando a mesma cerveja que eu havia comprado pro almoço, uma Austral de 1 litro. Conversamos sobre os dias no parque, as dificuldades do trajeto, nossas ocupações no Brasil, entre outras coisas. Logo na seqüência do almoço os dois iriam a Punta Arenas, assim selamos nossa amizade com uma foto. Muito simpáticos os dois!

Voltando agora ao final da tarde, retornei ao hostel para carregar a bateria do meu mp4 para a viagem que faria no fim do dia. Fiquei aguardando o funcionário do hostel que me levaria à rodoviária (como reservei as passagens no próprio hostel, eles oferecem esse serviço de nos levar até o terminal de ônibus). Na espera do ônibus, já no terminal, encontrei Javiera e Cristóban e ficamos conversando até a chegada do nosso ônibus, que por sinal atrasou uma hora. A saída, que estava marcada para as 18h00min, só foi acontecer às 19h00min.

Depois de pouco menos de meia hora de viagem paramos na fronteira do Chile para quitar nossa situação junto à imigração. Seguindo viagem, nova parada no lado argentino, para dar entrada no país, normalmente. Depois de muita espera seguimos finalmente viagem para Calafate. Mesmo agasalhado passei muito frio no ônibus. Consegui dormir no trajeto e acordei somente quando chegamos à Calafate, por volta das 02h00min. Como já era muito tarde e tínhamos a informação de que não haveria vagas em nenhum hostel (devido ao Festival do Lago, que receberia a banda Calle 13 como atração principal, entre outras), resolvemos passar a noite no próprio terminal rodoviário.

Apesar dos vários avisos fixados à parede dizendo ser proibido pernoitar, permanecemos ali mesmo, já que não havia outra opção. Os próprios policiais faziam “vistas grossas” à nossa permanência por ali. Fazia muito frio na cidade, nenhum deles, em sã consciência, nos colocaria pra fora daquele local. Javiera e Cristóban se juntaram a mim próximo a um aparelho de calefação para nos esquentarmos minimamente. Os dois tinham sacos de dormir e os estenderam no chão, logo dormindo.

Eu só tinha um pote de doce de leite que havia me restado da trilha. Depois de algumas colheradas, estendi no chão a capa da minha mochila e me acomodei dentro dela, utilizando a mochila como encosto. Fazia tanto frio que não conseguia pegar no sono, então resolvi ler um pouco pra que o sono chegasse. Depois de pouco mais de 30 páginas lidas (do livro De moto pela América do Sul, que conta a viagem feita por Che Guevara e seu amigo pelo continente) finalmente me acomodei e consegui pegar no sono. Acordei algumas vezes durante aquela noite fria, mas creio que tenha conseguido dormir umas duas horas completas.
Localização do Josmar Hostel (foto essencial pros "desorientados" como eu)

Praça em Puerto Natales



Vista que se tem da pista de skate da cidade.

No canto direito, monumento aos ventos.
Cristóban y Javiera

André e Fernanda

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Circuito W: 5º dia



No meu quinto e último dia no parque levantei às 03h30min a fim de chegar ao mirador das Torres para ver o Sol nascendo projetando seus primeiros raios nos paredões de pedra, deixando-os com uma tonalidade alaranjada. Havia uma caminhada muito dura a ser feita, pois o acampamento estava a 400 metros de altura e o mirador fica a quase 900 metros, sendo que seria uma caminhada noturna, pra dificultar mais ainda a subida.

Levei comigo o saco de dormir, seguindo a dica de um chileno que mora no Rio de Janeiro há alguns anos, em função do forte frio que faria nas primeiras horas da manhã, sem o calor dos raios solares. Depois de se perder na trilha umas três vezes, chegamos ao mirador, eu e Eduardo (Taís e Rafa ficariam no acampamento, e Marcelo nós só encontraríamos mais tarde). A vista lá de cima é sensacional! Abaixo das Torres se forma um pequeno lago, formado pelo degelo da neve das Torres. Com certeza compensa muito todo o desgaste da subida e o frio enfrentado.

Chegamos lá quando ainda estava escuro, abrimos os sacos de dormir e esperamos. Mesmo com toda a roupa e o saco de dormir ainda passei frio Fico imaginando como seria se não tivéssemos levado em conta a dica dada pelo chileno. Lá encima encontramos Marcelo, que havia dito que não iria, mas acabou sendo convencido por Scott a encarar a subida. “Marcelow, are you coming or not?”, foi o que disse Scott, aos gritos no meio da madruga. Infelizmente não podemos acompanhar o tal espetáculo dos paredões de pedra com a tonalidade alaranjada, pois o tempo estava fechado. U pouco frustrante, mas nada que estragasse a beleza daquela paisagem. Depois de tirar muitas fotos, começamos a descida. A parte engraçada ficou por conta de Scott, uma figura: fez a trilha ainda meio embriagado pela noite anterior, e sem lanterna. Chegou ao mirador das Torres e enquanto todos batiam fotos e curtiam a paisagem, ele deitou e dormiu. Figuraça!

Apressei-me na trilha e logo deixei Marcelo e Eduardo para trás, pois queria tomar um banho antes de desarmar a barraca, partindo a tempo de tomar o ônibus das 14h30min (o próximo seria somente às 19h45min). Percorri um trecho de muitas subidas e descidas até o Hotel las Torres, cerca de 5 km em uma hora cravada. Novamente os mineiros ficariam para trás, pois acreditaram que não haveria tempo suficiente para chegar até o hotel, e depois até a Laguna Amarga, de onde sairia o ônibus. Talvez não houvesse tempo mesmo. Eu acabei chegando a tempo, mas pelo fato de ter corrido boa parte do trajeto. Cumpri a meta que havia estabelecido, mas o preço foi cobrado pelos meus joelhos. Senti dores mesmo após o retorno ao Brasil.

Fui um dos primeiros a chegar até o hotel, às 11h00min, e teria de aguardar a van que nos levaria até a Laguna Amarga (local de partida do ônibus) até as 13h00min. Logo chegaram Scott e Brad e ficamos conversando. Scott me cedeu alguns biscoitos e eu, um cigarro. Logo na primeira van que chegou eu me mandei, logo depois de me despedir dos novos amigos nova-iorquinos. Antes de ir embora pude presenciar a festa feita por um grupo de paulistanos que concluíam o circuito “O”, que percorre todo o parque, em nove dias, creio eu.

O caminho de volta a Puerto Natales foi tomado por um sentimento de realização e desgaste. Liguei meu mp4 numa playlist que preparei para a viagem, mas na segunda ou terceira música já estava dormindo. Sentar naquele acento macio e confortável foi um manjar dos deuses. Havia pouca conversa, as pessoas pareciam estar todas com o mesmo sentimento de realização e cansaço.

Assim que cheguei ao terminal de ônibus fui direto à loja onde aluguei meus equipamentos de camping (não via a hora de me livrar de todo aquele peso). Fui atendido pela mesma mulher que me cedeu os equipamentos. Quando me atendeu pela primeira vez pareceu ser um pouco grossa, talvez pela correria do seu trabalho (havia algumas pessoas e ela atendia a todos sozinha). Desta vez me atendeu muito bem, foi logo me dando um beijo no rosto e perguntando como tinha sido a experiência. Vendo o cansaço estampado na minha cara, foi muito gentil ao me dar um bolo que havia feito.

Saindo dali fui logo ao hostel onde tinha deixado minhas coisas, e como havia lugares disponíveis, optei por passar a noite ali mesmo. Tomei um banho e mesmo sendo um pouco cedo para jantar, pedi meu prato de “milanesa de vacuno y papas fritas”. Uma porção muito generosa, diga-se de passagem. Pra acompanhar, uma Cristal de 1 litro, cerveja essa que não me agradou (não faz espuma, parecia um guaraná). De banho tomado e de estômago cheio, fui buscar uma lavanderia pra lavar minhas roupas usadas na trilha.
- diária do hostel: 8000 pesos chilenos
- jantar: 7000 pesos chilenos
- lavanderia: 6600 pesos chilenos
- cervejas: 2600 pesos

Feito isso, passei num mercado e comprei duas Coronas para acompanhar a estréia do São Paulo na Libertadores, contra os gambás (acabamos perdendo por 2 x 0). Como o jogo não estava do meu agrado, rs, tomei as duas garrafas conversando com a Ju no whatsapp, estava com muitas saudades dela, o papo serviu pra diminuir um pouco a sensação de distância. Depois da conversa fui dormir.
As Torres!

A minha é uma dessas, tá aí no meio!

Hotel Las Torres

Marcelo, Dudu e eu